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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

PEQUENO camponês


Na padaria, hoje de manhã

Fui comprar o pão (nosso de cada dia) e havia uma senhora em formação, na padaria, o que é bom sinal. Indica que haverá continuidade em assegurar o nosso sustento. Comprei um croissant que é feito a partir de uma mistura de margarina e manteiga e o pão camponês (pain paysan), que é feito a partir de uma mistura de farinha branca e de centeio (para saber mais sobre o centeio e o seu ondular, veja-se aqui).

Apercebi-me que ela estava em formação porque, quando se tratava de embrulhar o pão (da padaria e quase meu), colocou-o numa folha de papel branca, baça e perguntou à patroa como é que o enrolava. Depois das instruções dadas, e das bochechas da formanda já se tornarem escarlates, vi o pão dar três ou quatro voltas à minha frente sendo guiado por aquelas mãos sapientes, ainda que em formação, de padaria segurando tão só e apenas na folha de papel branca, baça. A patroa, com os seus óculos com grandes aros dourados, virou-se para mim e disse com um sorriso: “c’est le coup de main” (é a destreza manual). Esta destreza manual remete-me para outros lugares e tempos onde, em cozinhas escuras, se amassava, benzia (quem é que ainda se lembrará da reza?) tendia e colocava o pão-que-ia--ser no forno a lenha junto a um raminho de alecrim.

Com aquele “jeitinho” que se dá ao pão para embrulhá-lo, o pão fica, quase envergonhado, a entreolhar-nos pelos intervalos da folha de papel branca, baça. Talvez seja esse jeitinho que nos ajude a encontrar companheiros por aí, i.e. aqueles com que compartilhamos o pão (cum, panis).

Na altura do pagamento, a formanda teve dificuldade em encontrar, naquele ecrã de mar morto, o pão camponês. A patroa, sempre ao seu lado, disse na categoria “especiais”, “pequeno camponês” (petit paysan); efectivamente, com esta agricultura por demais intensiva (e por demais tudo) e que é predadora do ambiente e, por conseguinte, da nossa saúde, o pequeno camponês é com certeza alguém de especial, que, se não acordarmos a tempo, será devorado como devoraremos aqui em casa aquele suculento pão camponês que cheira a sol(o).

sábado, 20 de abril de 2013

Conversas de futuro que nascem numa padaria


Andava a matutar há já uns dias onde é que haveria uma padaria perto do apartamento onde agora estou a ficar, em Tbilisi. Há um pão ázimo que é muito conhecido por aqui, e, o que é ainda mais importante, é bom!

Há bossa nova na rádio (há sempre bossa nova na rádio mesmo quando eu não escuto rádio) e olho para um pátio onde em dias de sol – como não é o de hoje – convergem as famílias que não vivem nas fachadas dos edifícios. Na verdade, em Tbilisi, isso é mais ou menos democrático: quem vive na fachada do edifício, vive também nas traseiras do mesmo. Há basquetebol e jogos de cartas (o que eu gosto de jogos de cartas e das coisas que se dizem enquanto jogamos cartas que nos passam pelas mãos como pensamentos pela cabeça). Da secretária onde escrevo, vejo este pátio, agora esvaziado pela chuva. Tenho, por sobre a mesa, flores de olor forte, como (es)cravos em mês de Abril, e não me canso de olhar para arquitecturas antinómicas que se avizinham.

O que é importante é que descobri uma padaria onde há pão ázimo, um pão que, no meu imaginário, se associa ao Afeganistão, com um “ovo para molhar”, pela manhã, feito pelo nosso cozinheiro Afegão do Paquistão.

Não sabia como dizer pão em georgiano pelo que depois de tê-lo dito em inglês, disse-o em russo. A senhora do balcão percebeu-o. Disse que sim e que estava lá atrás. Eu pedi um pequeno porque nunca se sabe como será mas, aqui, não deveria ter duvidado: havia clientela à porta e uma furgoneta com trabalhadores à espera para saciar o apetite da manhã de trabalho.

(O prato do pão estava vazio e lá fui eu em mais uma viagem até à cozinha porque não se pode escrever verdadeiramente sobre pão sem prová-lo).

Por alguma razão, foi o patrão que me trouxe o pão (e a palavra pão cabe na palavra patrão), num saco azul de mar, como se ele adivinhasse todas as estórias que cabiam neste pão. Tentei perguntar como se dizia pão em georgiano mas não fui bem sucedido. (O prato do pão está vazio, novamente, será que o texto já vai muito alongado?).

Ele disse-me, então, que entrasse nesta padaria de 2 divisões e mostrou-me o forno. O forno não é na parede como estou habituado; é no chão, como no deserto. Tentei falar-lhe do Sahara e de como, aí, também se faz esse mesmo pão (ou mais ou menos) da mesma maneira (ou mais ou menos), onde se cavam buracos na areia e se usa excremento de camelo como combustível. Ele não percebeu a palavra “Sahara”, talvez aqui se diga de outra maneira mas, agora, já tenho um pretexto para futuras conversas.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O republicano com uma rainha nos bolsos

Hoje, fui comprar (o) pão (nosso de cada dia) à padaria do bairro. Quando estava na fila, preparava o troco certo para não fazer ninguém esperar. As duas moedas de €2 que tinha apresentavam uma águia alemã e a efígie da rainha Beatriz da Holanda (com a particularidade de todo o século XX ter sido o século de rainhas, na Holanda: Guilhermina, Juliana, e, agora, Beatriz). Entre uma rainha e uma águia - apesar do destino do coração desta rainha ter sido atado ao de uma águia alemã pelos laços do matrimónio com Claus von Armsberg - dei a águia e fiquei com a rainha; contudo, não sei se a poderei guardar por muito mais tempo porque, hoje em dia, os euros não chegam a arrefecer nos bolsos ou carteiras. Quando se sai da padaria, sai-se normalmente com vestígios de farinha na roupa que nos desenham o mapa da fome ou da gula mas eu, republicano (com o significado que lhe é atribuído deste lado do Atlântico) convicto saia com uma rainha nos bolsos. Até quando?