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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ainda antes do café da manhã

Aviso à navegação: este texto deve ler-se ao som de "Apinajazz"


Ainda antes do café da manhã, em São Paulo, ouvimos a cidade a ser construída. Aquele barulho firme do martelo que modela a pedra, nesta cidade-de-pedra-e-esperança-de-um-amanhã-diferente.
 
Ouço também um apartamento que se põe bonito para os sorrisos que irá receber mais tarde.

Neste quarto de paredes brancas e memórias de cor, ouço também uma cidadania em movimento, que se põe bonita para os sorrisos que quer legar a quem virá depois. É uma cidadania que se constrói como o martelo que molda a pedra na cidade.

Ontem, ao chegar a esta megapole, vi, da mesa onde me sentava, uma luz suspensa do alto da cidade. Cuidar da cidadania e da nossa casa pode ser tão frágil e tão importante como cuidar dessa luz suspensa. Contudo, atenção, porque a cidadania, ao contrário da cor, não pode ser uma impressão que a luz reflectida pelos corpos produz no órgão da vista (ou sê-lo-á?).
Escrever este texto de uma rua com nome indígena faz todo o sentido.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Conversas que mudam de cor


Andava há já uns tempos à procura de uma carteirinha de cabedal para pôr trocos como a que o meu avô Ferreira usava; dentro, havia moedas da obra de vimes e de outros cantos da vida. O cabedal, como a vida, ia mudando de cor conforme o uso.

Há dias, no Largo da Restauração, no Funchal, (re)encontrei o senhor que trabalha com cabedal e que tinha as - infelizmente já caídos em desuso - carteiras. “Os chineses vendem estas carteiras, em plástico, a €2 e €3 e as pessoas compram. Os taxistas já não as usam”. O que ele não sabia é que eu tinha perguntado a um taxista amigo da botânica e das línguas, em suma, curioso da vida, onde poderia encontrar estas carteirinhas. Quando a encontrei, fiquei contente; foi como dar um abraço ao meu avô. Da próxima vez que transportar troco, fá-lo-ei na minha carteira de cabedal da Madeira, enquanto a cor da vida vai mudando.

O Largo da Restauração leva o nome de todo um percurso histórico, que, em 2012, não será lembrado com um feriado mas eu nunca me esquecerei que o Largo da Restauração restaurou-me o gosto de guardar trocos nas carteiras de cabedal do meu avô.