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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Dª Rosa em flor


A Dª Rosa, que tem nome de flor, é da Camacha; é uma das senhoras da Camacha que vende flores no mercado dos Lavradores. Quem nunca foi ao mercado dos Lavradores não conhece verdadeiramente a Madeira nem o Natal na Madeira. A Dª Rosa diz que, este ano, não foi um bom ano para junquilhos, “quando vinha a folha não vinha flor”. No mercado, este ano, poderá haver muita folha sem flor; na tangerina, e no odor que a rodeia, há também folha, pelo menos, na boa tangerina. Há também olhos dormentes – em botânica, significa que as folhas se enrolam durante a noite – que, às vezes, se poderiam confundir com botões de rosa. A Dª Rosa (co)move-se quando fala nos “seus emigrantes”. Qual será a família que passará pelo dia 23 de Dezembro incólume por causa dos “seus emigrantes”?

Um abraço emigrante e boa noite do mercado!


P.S.: Obrigado à Antena 1 Madeira por me ter feito chegar a Dª Rosa e o cheiro a tangerina do mercado dos Lavradores às portas de casa, em Estrasburgo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"Hoje é a noite"



Machico, a leste da ilha, no sítio das queijadas

Se coubesse aqui esta imagem, eu diria que me apareceu um pacote de açúcar com a seguinte menção: “Uma noite digo-te tudo o que gostaria de ouvir. Hoje é a noite.” Não havia pontos de exclamação mas tudo cabia naquele esguio traço que termina com um ponto no chão.
Ontem, fui despedir-me de um amigo, ao aeroporto; ao telefone, ele dizia que estava no café das despedidas, onde se vê o mar e o céu (vê-se a pista donde parte a Amália Rodrigues, o José Régio e outros aviões) e, ao fundo, as Desertas que descansam.
Depois, ele foi; ninguém ocupou a cadeira que ele havia deixado vaga porque ninguém a poderia ocupar. Daí por um bocado, desviámos os olhos do mar de olhares que navegavam naquela mesa que nos unia para poder vê-lo partir, no avião cujo nome não sabíamos. Um dia, talvez, veremos o seu nome no avião e na sua barriga entrarão meninos e meninas com os olhos que brilham como a estrela de Belém porque vão estar no “mar de ar”. Tal avião voará tão alto que não terá que responder às pragmáticas regras da gravidade (nem da caridade) porque nem tudo o que sobe terá que cair e, poderá então cair-se para cima, enlevar-se.
Há luzes que piscam no presépio no sítio das queijadas, em Machico, como as asas do avião que foge às leis (da gravidade e dos homens) e piscamos os olhos também.
Feliz Natal a quem deixa aquele lugar vazio à volta da mesa que nos une!
O meu amigo, esse, pensaria no avião, naquele menino que une o asfalto à favela, (agora, comunidade) levando sonhos de pouca dura e trazendo notas, no intervalo de um Natal.
Mas o meu amigo, sabido, deixou-nos duas amigas para que o Natal não se acabasse e ele (será uma ela?) não pode acabar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Vejo o Natal


Ontem, do avião, vi o sol atlântico, que me escapava há já uns meses; o atlântico, esse horizonte desnivelado que leva e traz.

O menino que se sentava por detrás de mim, dizia, ao ver as primeiras luzes da Madeira: “vejo a cidade”; o menino dentro de mim pensava: vejo o Natal.