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sábado, 15 de dezembro de 2012

Newto(w)n e o comportamento da luz (em nós)


Hoje, Sábado no mundo, enquanto lavava o bule que receberia o chá preto com bergamota da Geórgia, olhei através da janela (se tivéssemos janelas seria mais fácil encontrarmo-nos num sorriso aos quadradinhos?) e vi um cobertor que esvoaçava em ondas de braços. Mesmo sem óculos consigo ver a revoada de sonhos que saia daquele cobertor, na verdade um (des)cobertor, porque, quando se lançam sonhos pela janela, presenteia-se o mundo com bocadinhos daquilo que so(nha)mos (ser).

E agora, o que se fará das (des)cobertas dos jovens de Newtown quando esvoaçarem pelas janelas? Ao ouvir falar do terrível acontecimento de Newtown, lembro-me de Newton, Isac, que realizou experiências sobre a composição da luz, estabelecendo que o estudo moderno da óptica não é mais que estudar o comportamento da luz. Hoje, apercebemo-nos que sem estudar o comportamento da luz em nós não é possível perceber, como Newto(w)n fez, que a luz branca é composta do mesmo sistema de cores que pode ser visto num arco-íris.

Avanço mais no meu tempo e encontrou um artigo sobre luz branca, ruído branco e o novo olfacto branco, que, salvaguardam, não se parece com nenhum cheiro natural.

De repente, surge-me também Pedro Cabrita Reis que é, pela mão de Teresa Villaverde Cabral, a favor da claridade.

 

sábado, 12 de maio de 2012

“There is harmony in terms of the person that I perhaps dreamed of being”


Joaquim Leitão falava da dinâmica, que existia nos seus filmes, entre o respeito por aquilo que é e por aquilo que poderia ser. No meu entendimento, artistas – incluindo, obviamente, os músicos – são agentes prevaricadores, que arriscam mais naquilo que poderia ser do que naquilo que é. É uma tensão quotidiana, é caminhar no fio da navalha; é um funâmbulo que pé ante pé percorre aquela linha tensa, suspensa do chão, sem rede, e que quando menos se espera dá aquela pirueta que não vem de lado algum, produzida não pelos músculos do artista mas pelo sonho de circo que temos em nós. O circo, esse mundo onde o que é encontra aquilo que poderia ser.

Andar pela vida – que é também sem rede mesmo quando a pensamos ver - é como tentar afinar um instrumento (e um piano também se afina). É preciso o som justo. Eu, enquanto jurista e entusiasta de direitos humanos, não sou diferente e aquilo que poderia ser, aquilo que deveria ser, o “quid ius”, o justo – recordo aqui que o novo Presidente eleito pelos Franceses disse que, no final do seu mandato, queria ser julgado pela justeza das suas decisões - é o que me faz singrar; mas, alto, Joaquim Leitão diz-nos que é preciso também respeitar aquilo que é, aquela ficção de realidade porque, caso contrário, a nossa récita de vida, de projecto de vida, não será verídica porque não será justa. Os sonhos terão que ser minimamente verídicos para serem sonhados? Ou para serem vividos? Felizes aqueles que viverão sonhos não verídicos!

Ontem, fui apanhado de surpresa – como todos nós – com a notícia que me chegava daquela falésia do Guincho; da imagem que Bernardo Sassetti andava à procura, da imagem abstracta, que talvez uma falésia, o mar, o vento, bemóis e sustenidos que enrolavam na onda que batia contra a rocha continham.

Há dias, soube que há um povo no nordeste do Togo, os Batammariba, cujo modo de vida foi considerado património imaterial da humanidade pela UNESCO. A transmissão do saber dos Batammariba é baseada na escuta, numa atenção estrita entre a gestualidade, o quotidiano, a maneira de falar e a inflexão da entoação. Os Batammariba são uma outra maneira de descrever Bernardo Sassetti e todos aqueles que acreditam num mundo que está por vir que é melhor do que aquele que aqui está; e que, por isso, lhe acrescentam o que têm de criatividade e engenho.

Quando soube que Bernardo Sassetti perecera, tentei, com afã, lembrar-me onde o tinha visto ao vivo – e aqui, a expressão, trai-me, ou talvez não – pela última vez: teria sido no festival de jazz de Coimbra, ou no Funchal Jazz, ou no Porto, ou teria somente imaginado sonhos possíveis de ver os “3 pianos” (que vi nessa mesma noite, por amável simpatia – a simpatia do serviço público - da RTPi)?

Nesse mesmo dia, fui ver, em homenagem ao Bernardo Sassetti, o pianista turco Fazil Say ( e que bonito é um pianista ter espelhado no nome a récita do dizer, “say”). As mãos de Say dançavam durante o concerto, abriam caminho para o seu corpo, para a orquestra filarmónica de Estrasburgo, e para toda a plateia que ali estava; as mãos de Say introduziam-nos àquele mundo do que poderia ser. As mãos de Sassetti faziam o mesmo. E a imagem sonora que Sassetti procurava por entre as falésias do Guincho: onde estará elas em nós?

O mais importante sobre Bernardo Sassetti é, talvez, o que ouvi, através de um ecrã de televisão, da boca de um amigo: humano, essencialmente humano. Como um grande artista que era, humano, acima de tudo. Um abraço!

Depois de ancorado e sobre o título: retroversão para inglês de “Tudo está equilibrado com a pessoa que eu talvez tenha sonhado ser", que é  uma frase retirada da entrevista de Ana Sousa Dias à Beatriz Batarda, a esposa de Bernardo Sassetti, para a revista "UP", cujo lema é "ouse sonhar mais alto" e que pode ser lida aqui.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os escritórios não protegidos da rua

Dedicado a todos aqueles que, corajosamente, fazem da rua o seu poiso

O senhor do raspa[1], o Benjamim, foi encontrado morto[2]. O senhor do raspa era o senhor que, durante anos e anos, instalou o seu escritório – leia-se o seu banco e a sua mesinha – na rua de João Tavira. O chão do seu escritório era de calçada portuguesa e as paredes eram invisíveis como os muros da sociedade em que vivemos; a porta, essa, estava sempre aberta. Os raspas estavam alinhados numa ordem desconhecida. A seu lado, normalmente, havia uma companhia feminina – ao ler a notícia sobre a sua morte, descubro que era a sua mãe. Eram pessoas que conheciam o escritório não protegido da rua.

Lembrei-me que conheço outras pessoas que também povoam escritórios não protegidos da rua e quis relembrá-los aqui. A senhora da marcela da rua Fernão Ornelas e, aos sábados, do mercado. Há dias, ouvia-a na televisão a dizer que o marido planta marcela e ela vende-a para arredondar os finais de mês. Pareceu-me bonito este fordismo sentimental.


Lembro-me também das senhoras da casa de bordados da mesma rua Fernão Ornelas que vão gastando a vista e as costas no início da escadaria que eu nunca subi e do senhor da rua da Boa Viagem que vende meias e ideias. Não me esqueço também do acordeonista cego que toca e canta na ponte do Bazar do Povo; já há muito tempo que não o ouço porque ver, como ele, vejo-o sempre mesmo que ele lá não esteja. A estes e a muitos outros, quando puder, voltarei a bater à porta in-existente do vosso escritório. O artigo já mencionado dizia que Benjamim vendia sonhos; e, agora, quem os venderá?

Nota Bene: Não me sai da cabeça a colocação de uma lápide, onde Benjamim vendia os raspas, com os dizeres: aqui vendeu Benjamim, com sua mãe, sonhos.


[1] O raspa é conhecido, em Portugal Continental, como raspadinha.
[2] v. http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/289745/casos-do-dia/289859-vendedor-de-raspas-encontrado-morto (só para assinantes).