sábado, 15 de dezembro de 2012

Livre, num céu em voo raso

Em Londres, no início da semana, um avião com gente por dentro rasgava o céu ao mesmo tempo que me aguçava a imaginação. Para onde iriam (o avião e a imaginação)?







 
O poeta Manoel de Barros diz que "passarinhos existem para dar movimento ao entardecer. Eu me recolho no abandono para ser livre". Foi nesse entardecer londrino, onde eu via passar pássaros com gente por dentro, que ia aprendendo a ser livre; no entanto, para que me descobrisse livre, tive que procurar o outro, o que seguia por dentro do passarinho mas que passava em voo raso aqui em baixo, onde a vida se (des)cose.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“Onde está a esperança?” Logo ali.


"Onde está a esperança?". Era este o mote para o programa “Prós e Contras” do dia 12 de Novembro, dia em que Angela Merkel visitou Portugal.

No decorrer do programa, procurava-se a esperança quando, a determinada altura, a esperança levantou-se e falou: disse que tinha 48 anos, um subsídio de desemprego de €248, que antes trabalhava no comércio e que vivia com duas filhas, uma delas com 22 anos e também desempregada. A filha mais velha não pôde ingressar no ensino superior por razões que se subentenderam. Havia também um abono de família de €42 da filha mais nova, que tem 15 anos e que estava a estudar. Esperança (digo, Gertrudes) já tinha vendido os anéis e já nem anéis havia. Havia também um subsídio de reinserção de €42. Fátima Campos Pereira pergunta: “Onde está a sua esperança, hoje”? Infelizmente, poucos naquela sala, incluindo a apresentadora, se aperceberam que a esperança estava ali, era ela, personificada em Gertrudes Moura, porque não interessa o que se lhe chama mas aquilo que é.

O que fico a pensar é que, havendo tanta dificuldade para perceber que a Esperança estava ali, naquela sala cheia, será que deixámos ir embora a Esperança sem a confortar, sem a ajudar, sem dizer-lhe: Esperança (digo, Gertrudes), isto não é muito mas dentro deste abraço-envelope vai o que ainda temos, a solidariedade deste país. Talvez não tenha havido abraço-envelope, e mesmo se tivesse havido, não era caridadezinha, era um dever de solidariedade.

A senhora Merkel, penso, nunca ouviu falar de Gertrudes Moura mas já terá ouvido falar de esperança; não sei é se a reconhecerá nestas vestes. E os senhores Primeiro-Ministro e Presidente da República? Falaram, respectivamente, à senhora Merkel da Gertrudes Moura (digo, da Esperança)?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pão frio e Mundo quente


Hoje, de manhã, como em muitas outras manhãs, fui comprar o pão e “Le Monde” (jornal francês intitulado “O Mundo”). Hoje, dia de greves (quase) gerais, em que nem [se] (h)ouve sinais de Fernando Alves, o pão vinha frio e o mundo vinha quente. Sinais dos tempos?

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Onde está o escarlate-presente? Ouvimo-lo?


Eu comprava o mundo (“Le monde”) e ela agarrava-me na nota que o pagava e dava-me o troco como quem joga berlindes, numa velocidade infernal. À saída, uma senhora de cabelos brancos, que lhe vão bem com o casaco de Inverno escarlate, estaciona o carro alemão com uma rapidez que penso ir acabar o mundo. O mundo não acaba, pelo menos, hoje, penso eu, talvez equivocado.

Folheio a revista que veio com o jornal no serão de sexta e encontro o escarlate do casaco da senhora. É uma fotografia de Nobuyoshi Araki e leio o seguinte: “(…)Et toute photo n’est rien d’autre que la répresentation d’un jour unique. Et ce jour unique contient à la fois le passé et la projection de l’avenir”. Lido isto fico a pensar cá para mim se o presente-escarlate que escaparia a esta foto não estaria nos berlindes imaginários da rapariga da tabacaria e no casaco da senhora do carro alemão. Quem sabe?

Tudo isto me parecia, contudo, tão distante do silêncio, que, acoplado a uma folha em branco e, nos movimentos de uma caneta, nos faria ouvir Deus (ouvir aqui o programa de 8 de Novembro da “Global News” da BBC sobre “joy of silence”) ou, o que talvez seja o mesmo, nós mesmos.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O polícia apanha a vergonha e entrega-a ao Irmão Metralha


No passado Domingo, houve finalmente tempo para ver o documentário sobre a Goldman Sachs do canal Arte; além do calafrio que me causou, registo uma imagem que me marcou: um activista vestido de Irmão Metralha, à saída da audiência pelo Senado dos E.U.A de “Fabulous Fab”. Quando “Fabulous Fab” se prepara para sair da sala, o Irmão Metralha empunha um cartaz onde se lê “Shame” (i.e. vergonha); o cartaz cai no chão; o polícia, ao lado do Irmão Metralha, ajoelha-se para apanhar o cartaz onde se lê “Shame”, levanta-se e devolve “Shame” ao Irmão Metralha. De que lado terá ficado, então, esta vergonha?

“Fabulous Fab” é o “trader” francês da Goldman Sachs que alegadamente orquestrou a operação “Abacus”, que permitiu englobar num pacote empréstimos-habitação de alto risco de insolvabilidade convertidos em produtos financeiros com a classificação máxima de “AAA” que Goldman Sachs vendeu a clientes por um valor de €750 milhões enquanto, concomitantemente, especulava em baixa sobre esses mesmos títulos. Como resultado, o valor de tais títulos sucumbe e vários investidores – pessoas, de carne e osso, bancos de menor dimensão – perdem os seus investimentos e, alguns, os investimentos de uma vida; certamente, como nestes jogos de casino, quando alguém perde, há sempre alguém que ganha, e, aqui, quem ganha, é a Goldman Sachs.  Mas de quem é a Goldman Sachs? Talvez, como todas as grandes companhias hodiernas, de ninguém ou acoplado a uma mão invisível haverá também um rosto invisível?

 

Para saber mais sobre o assunto:


http://www.nytimes.com/2012/03/14/opinion/why-i-am-leaving-goldman-sachs.html?pagewanted=all&_r=0 (consultado a 21 de Outubro): artigo de GREG SMITH; “Why I Am Leaving Goldman Sachs”

http://www.nytimes.com/2012/10/20/business/why-i-left-book-about-goldman-falls-short.html?pagewanted=all (consultado a 21 de Outubro de 2012): NYT diz que o livro de Mr. Smith não apresenta factos que suportem o que ele alega. Terá a montanha parido um rato ou será impossível alguma montanha parir algo que desvele o que se passa na Goldman Sachs?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O marinheiro dos Natais


Hoje, acordei cedo, na hora em que ainda não se sabe onde nos levará a luz do dia. Tinha que abrir a porta da cave ao “ramoneur”, o limpa-chaminés, que, como no conto de Andersen, v(er)ia estrelas verdadeiras a partir da chaminé e provavelmente traria um príncipe por dentro que estaria apaixonado por uma pastora. Não sei é se ele também faria pinturas na calçada como Bert, o amigo limpa-chaminés de Mary Poppins.
 
 

Portou-se como um verdadeiro profissional. Tinha um cabo vermelho vivo, enrolado como uma corda de marinheiro e um bigode preto como a roupa que vestia. Eu, como toda a gente, fingi que não sabia mas a única razão da sua vinda era preparar a chaminé para a chegada do Pai Natal.

Continuação de uma feliz preparação dos vossos Natais!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Le Rom qui parlait des devises

Entendu à France 3 Soir, avec un accent:

« L’Europe et la France ont des devises très belles aux oreilles : « liberté, égalité et fraternité… mais elles n’ont pas d’application ».

C’était dit par un Rom dans un campement Rom mais je ne sais pas jusqu’à quand est-ce qu’il y restera ou jusqu’à quand est-ce qu’ils le laisseront y rester.