Chico Buarque e Carminho cantavam isto numa ponte entre Portugal e Brasil, com todos os barcos, no fluxo e refluxo, que cabem pelo meio, e, com atenção, ainda se entreviam os índios, não de Caminha nem de Alencar mas de Machado de Assis, Portinari e Laymert Garcia dos Santos, os da terra vermelha, vivos, verdadeiros, de carne e osso.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Deste lado das nuvens, onde (a) gente mora
Hoje, de manhã, com o chão da cozinha banhado pelo sol que lá entrava,
ouvia Sinais. Falava das nuvens e da proximidade de voar e orar (a palavra
orar, como voar, contêm já a palavra ar). Falava-se das nuvens e de quando se
está acima das nuvens e, eu, que continuava com a cabeça acima delas,
cortava em dois a maça com o desejo do batido que me abriria a manhã (uma manhã-maçã).
Mas, logo a seguir, caía das nuvens, ao ouvir que, em Espanha, se chegaria,
pela primeira vez, aos cinco milhões de desempregados. Não sei se, lá, nas
nuvens, há emprego (ou falta dele) – exceptuando, claro, os homens e mulheres
que trabalham nas companhias de aviação, em missões espa(/e)ciais, e, evidentemente, no
domínio das artes (haverá um domínio nas artes, ao lado do domínio das artes
(?), talvez – mas, quanto a mim, gosto de estar com a cabeça nas nuvens mas com
os pés fincados deste lado das nuvens: é aqui que (a) gente mora.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Crónicas de um país em guerra, II
O que era estranho não era haver uma imagem de uma baguete na reportagem da
Agence France Presse; o que era estranho era o contexto: aquela baguete, esse
substantivo feminino que amolece corações como se amolece estômagos, posicionada
como um míssil de longo alcance (apesar deste míssil não matar ninguém, apenas
a fome), encimava um monte de provisões que esperava por ser cuidadosamente acondicionado
no blindado que seguiria para o Norte (do Mali); a ajuda veio do Norte para o
Sul para que se pudesse combater a Norte evitando perigos ao Sul, que se
propagariam a Norte.
Entre caixas de munições, mochilas com o essencial para sobreviver, rádios
e sonhos de estabilidade e unidade, havia aquela baguete. Apontaria também ela
para o Norte?
Minutos antes, via Daniel Cohn-Bendit discursar, no Parlamento Europeu,
perante a Alta Representante da União (?) [Europeia] para os Negócios Estrangeiros e a Política de
Segurança; ele dizia que falamos em “nós” mas são as tropas francesas que estão
no terreno; que “nós” vamos enviar os enfermeiros para cuidar dos feridos
enquanto os franceses, sozinhos, estarão apeados, no Norte (ou a caminho do
Norte). A Alta Representante tomava notas enquanto olhava, de quando em vez,
para Cohn-Bendit. Será que essas notas apontariam também para Norte?
A baguete, fresca, com rasgos de padeiro, apontava, certamente, para Norte.
A dificuldade é saber quem e o que regressará do Norte.
Crónicas de um país em guerra, I
Hoje, é terça-feira, dia de mercado. De manhã, nevava, mais e mais. Agora,
parou. Os carros ainda mostram que nevou e que, provavelmente, voltará a nevar.
Hoje, não é um dia como os outros. Escrevo de um país em guerra, em guerra
desde sexta-feira (não, não me parece que tenha sido sexta-feira santa). Houve,
talvez, um negrume no céu como os lenços que, no imaginário colectivo
estrangeiro, as mulheres portuguesas ainda usam para cobrir a cabeça.
O aviãozinho de madeira que trouxe do mercado modelo (e, por conseguinte,
um avião modelo) de Salvador, adquire toda uma outra dimensão desde sexta-feira.
Olho para a fotografia e vejo que está ao lado de um “pin” onde se inscreve
“osez la tendresse”, que tem uma bota de viloa como se fosse a Sicília e tapa
um gato japonês que tem a pata direita levantada (será sorte ou dinheiro? Nunca
sei.). Mais abaixo - e penso que será de difícil leitura - há um São José que
perdeu a cabeça e deixou o presépio (agora, Maria e o Menino Jesus formam uma
família monoparental). Mais à direita (como na Europa) há um “pin” onde se lê
“Mission Possible” e que, de quando em vez, me encima os bolsos dos casacos,
quando ainda não há frio de Inverno como hoje.
Já quase a fugir da imagem há uma estrela da Cidade do Cabo, para onde nos
guiará? Parece que para as “Wild Things Africa”.
Admito que tive que me levantar para ver que aquele selo que quase não se
vê (como nos correios, onde os selos quase já não se vêem) é da Tunísia e mostra
o anis verde, uma erva doce.
O “pin” do barrete de vilão está vazio; talvez procure a cabeça de São
José. A chave do avião, essa, continuará por ali numa luta desenfreada entre o
São José que perdeu a cabeça e a bota de viola como se fosse a Sicília.
Hoje, é terça-feira, de um país em guerra, desde a minha secretária.
(Aviso à navegação: apesar de ter tentado várias vezes, não me foi possível adicionar a fotografia de que vos falo ao texto; o espaço outrora ocupado por imagens, é agora ocupado por um vazio: será isso a metáfora da guerra?).
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
"Hoje é a noite"
Machico, a leste da
ilha, no sítio das queijadas
Se coubesse aqui esta imagem, eu
diria que me apareceu um pacote de açúcar com a seguinte menção: “Uma noite
digo-te tudo o que gostaria de ouvir. Hoje é a noite.” Não havia pontos de exclamação
mas tudo cabia naquele esguio traço que termina com um ponto no chão.
Ontem, fui despedir-me de um
amigo, ao aeroporto; ao telefone, ele dizia que estava no café das despedidas,
onde se vê o mar e o céu (vê-se a pista donde parte a Amália Rodrigues, o José
Régio e outros aviões) e, ao fundo, as Desertas que descansam.
Depois, ele foi; ninguém ocupou a
cadeira que ele havia deixado vaga porque ninguém a poderia ocupar. Daí por um
bocado, desviámos os olhos do mar de olhares que navegavam naquela mesa que nos
unia para poder vê-lo partir, no avião cujo nome não sabíamos. Um dia, talvez,
veremos o seu nome no avião e na sua barriga entrarão meninos e meninas com os
olhos que brilham como a estrela de Belém porque vão estar no “mar de ar”. Tal
avião voará tão alto que não terá que responder às pragmáticas regras da
gravidade (nem da caridade) porque nem tudo o que sobe terá que cair e, poderá
então cair-se para cima, enlevar-se.
Há luzes que piscam no presépio
no sítio das queijadas, em Machico, como as asas do avião que foge às leis (da
gravidade e dos homens) e piscamos os olhos também.
Feliz Natal a quem deixa aquele
lugar vazio à volta da mesa que nos une!
O meu amigo, esse, pensaria no avião, naquele
menino que une o asfalto à favela, (agora,
comunidade) levando sonhos de pouca dura e trazendo notas, no intervalo de um Natal.
Mas o meu amigo, sabido, deixou-nos duas amigas para que o Natal não se acabasse e ele (será uma ela?) não pode acabar.
Mas o meu amigo, sabido, deixou-nos duas amigas para que o Natal não se acabasse e ele (será uma ela?) não pode acabar.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Salvo raras excepções
Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar; e uma lágrima percorrerá duas
vezes a mesma vereda no rosto?
O que sei é que o sulco invisível da lágrima deixada no rosto, marca-o, pelo menos para aqueles que o sabem ver.
O que sei é que o sulco invisível da lágrima deixada no rosto, marca-o, pelo menos para aqueles que o sabem ver.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Newto(w)n e o comportamento da luz (em nós)
Hoje, Sábado no mundo, enquanto
lavava o bule que receberia o chá preto com bergamota da Geórgia, olhei através
da janela (se tivéssemos janelas seria mais fácil encontrarmo-nos num sorriso
aos quadradinhos?) e vi um cobertor que esvoaçava em ondas de braços. Mesmo sem
óculos consigo ver a revoada de sonhos que saia daquele cobertor, na verdade um
(des)cobertor, porque, quando se lançam sonhos pela janela, presenteia-se o
mundo com bocadinhos daquilo que so(nha)mos (ser).
E agora, o que se fará das
(des)cobertas dos jovens de Newtown quando esvoaçarem pelas janelas? Ao ouvir falar
do terrível acontecimento de Newtown, lembro-me de Newton, Isac, que realizou experiências sobre
a composição da luz, estabelecendo que o estudo moderno da óptica não é mais
que estudar o comportamento da luz. Hoje, apercebemo-nos que sem estudar o
comportamento da luz em nós não é possível perceber, como Newto(w)n fez, que a luz
branca é composta do mesmo sistema de cores que pode ser visto num arco-íris.
Avanço mais no meu tempo e encontrou um artigo sobre luz branca, ruído branco e o novo olfacto branco, que, salvaguardam, não se parece com nenhum cheiro natural.
De repente, surge-me também Pedro Cabrita Reis que é, pela mão de Teresa Villaverde Cabral, a favor da claridade.
Avanço mais no meu tempo e encontrou um artigo sobre luz branca, ruído branco e o novo olfacto branco, que, salvaguardam, não se parece com nenhum cheiro natural.
De repente, surge-me também Pedro Cabrita Reis que é, pela mão de Teresa Villaverde Cabral, a favor da claridade.
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