segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Que sombras deixaremos depois de partir?

No lugar onde se sentava a senhora que virava textos em folhas (se fossem pautas de música seria uma "torneuse de page") agora vê-se a sombra negra de plantas verdes.

Que sombras deixaremos depois de partir? 

A colaboradora n. 390898 de olhos azul afegão

Vim ao IKEA (bibliothèques obligent). Acabei por almoçar aqui. A senhora - colaboradora n. 390898, diz-me o recibo - que me serviu tinha olhos de um azul afegão.

A Bamyan da única governadora mulher, da primeira mulher taxista e onde ainda se andava a pé, incluindo passeios nocturnos na pista não asfaltada  do aeroporto sob um céu de estrelas-já-ali-do-hemisfério-sul e das meninas que, muito cedo, caminham à beira da estrada, dirigindo-se à escola já não é a minha Bamyan.

Ao longe, do outro lado da auto-estrada, entrevejo as antigas instalações da fábrica de cerveja Fischer. Vão transformá-la em apartamentos, de certeza de "standing". Não serão para os bolsos da senhora de olhos azul afegão nem para os meus. Viva o design industrial e a Bamyan que eu conheci.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Constância e a Outra

No aeroporto, a Custódia de Portugal pede à Custódia de Minas que aqueça o puré da menina. A Custódia de Minas chama "a Outra" à Custódia de Portugal. Parecem entender-se bem e gostar do que fazem.

Falámos do primeiro mandato de Lula. "Votei nele no primeiro mandato...". Agora, não sei em quem vota mas também não deve ser fácil a escolha.

No último dia do ano, conheci duas Custódias que nunca se tinham encontrado e, agora, trabalham lado a lado. A Custódia que me serviu deu-me pastéis de bacalhau "feitos ali" e arroz de tomate; disse-me que ainda podia escolher mais um acompanhamento. A guloseima e a viagem que ainda havia pela frente fez-me perguntar se podia ser um bocadinho de arroz de pato. A Custódia olhou para mim de soslaio, colocou os olhos cabisbaixos, disse baixinho que não podia e serviu-me.

O acto da Custódia em fazer o que não pode é o que nos separa das máquinas e fez-me lembrar um estudo há dias publicado: não seria apenas o Estado a não funcionar se os funcionários (aqueles que fazem o Estado funcionar) fossem impessoais.

Obrigado Custódia(s) - por fazer o que devem e o que não devem - e um bom ano!

Por causa de um puzzle

A Laura montava um puzzle e eu disse-lhe "se for preciso forçar, é porque não é a peça certa". Depois, pensei cá para mim que este conselho para montar puzzles também é um bom conselho para quando se vai montando a vida. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

"Estrela da manhã"

Uma das muitas cores da noite de Natal: a última pessoa a comungar na missa do galo na Camacha foi um senhor que trabalha na "Estrela da manhã" (um estabelecimento de paredes alvas com letras escarlates, à entrada da minha terra); e assim vamos, seguindo o senhor da Estrela. 

sábado, 16 de setembro de 2017

"Realness"

Estou numa biblioteca; à minha frente, um rapaz de cor negra, com uma camisa azul, onde, um bocadinho acima do coração , se lê "realness". Assim de repente lembrei-me do poema do António Gedeão, “Em quantas partes se divide o coração?”; e não é só preciso sabê-lo de cor.