sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"Hoje é a noite"



Machico, a leste da ilha, no sítio das queijadas

Se coubesse aqui esta imagem, eu diria que me apareceu um pacote de açúcar com a seguinte menção: “Uma noite digo-te tudo o que gostaria de ouvir. Hoje é a noite.” Não havia pontos de exclamação mas tudo cabia naquele esguio traço que termina com um ponto no chão.
Ontem, fui despedir-me de um amigo, ao aeroporto; ao telefone, ele dizia que estava no café das despedidas, onde se vê o mar e o céu (vê-se a pista donde parte a Amália Rodrigues, o José Régio e outros aviões) e, ao fundo, as Desertas que descansam.
Depois, ele foi; ninguém ocupou a cadeira que ele havia deixado vaga porque ninguém a poderia ocupar. Daí por um bocado, desviámos os olhos do mar de olhares que navegavam naquela mesa que nos unia para poder vê-lo partir, no avião cujo nome não sabíamos. Um dia, talvez, veremos o seu nome no avião e na sua barriga entrarão meninos e meninas com os olhos que brilham como a estrela de Belém porque vão estar no “mar de ar”. Tal avião voará tão alto que não terá que responder às pragmáticas regras da gravidade (nem da caridade) porque nem tudo o que sobe terá que cair e, poderá então cair-se para cima, enlevar-se.
Há luzes que piscam no presépio no sítio das queijadas, em Machico, como as asas do avião que foge às leis (da gravidade e dos homens) e piscamos os olhos também.
Feliz Natal a quem deixa aquele lugar vazio à volta da mesa que nos une!
O meu amigo, esse, pensaria no avião, naquele menino que une o asfalto à favela, (agora, comunidade) levando sonhos de pouca dura e trazendo notas, no intervalo de um Natal.
Mas o meu amigo, sabido, deixou-nos duas amigas para que o Natal não se acabasse e ele (será uma ela?) não pode acabar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Salvo raras excepções

Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar; e uma lágrima percorrerá duas vezes a mesma vereda no rosto?

O que sei é que o sulco invisível da lágrima deixada no rosto, marca-o, pelo menos para aqueles que o sabem ver.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Newto(w)n e o comportamento da luz (em nós)


Hoje, Sábado no mundo, enquanto lavava o bule que receberia o chá preto com bergamota da Geórgia, olhei através da janela (se tivéssemos janelas seria mais fácil encontrarmo-nos num sorriso aos quadradinhos?) e vi um cobertor que esvoaçava em ondas de braços. Mesmo sem óculos consigo ver a revoada de sonhos que saia daquele cobertor, na verdade um (des)cobertor, porque, quando se lançam sonhos pela janela, presenteia-se o mundo com bocadinhos daquilo que so(nha)mos (ser).

E agora, o que se fará das (des)cobertas dos jovens de Newtown quando esvoaçarem pelas janelas? Ao ouvir falar do terrível acontecimento de Newtown, lembro-me de Newton, Isac, que realizou experiências sobre a composição da luz, estabelecendo que o estudo moderno da óptica não é mais que estudar o comportamento da luz. Hoje, apercebemo-nos que sem estudar o comportamento da luz em nós não é possível perceber, como Newto(w)n fez, que a luz branca é composta do mesmo sistema de cores que pode ser visto num arco-íris.

Avanço mais no meu tempo e encontrou um artigo sobre luz branca, ruído branco e o novo olfacto branco, que, salvaguardam, não se parece com nenhum cheiro natural.

De repente, surge-me também Pedro Cabrita Reis que é, pela mão de Teresa Villaverde Cabral, a favor da claridade.

 

Livre, num céu em voo raso

Em Londres, no início da semana, um avião com gente por dentro rasgava o céu ao mesmo tempo que me aguçava a imaginação. Para onde iriam (o avião e a imaginação)?







 
O poeta Manoel de Barros diz que "passarinhos existem para dar movimento ao entardecer. Eu me recolho no abandono para ser livre". Foi nesse entardecer londrino, onde eu via passar pássaros com gente por dentro, que ia aprendendo a ser livre; no entanto, para que me descobrisse livre, tive que procurar o outro, o que seguia por dentro do passarinho mas que passava em voo raso aqui em baixo, onde a vida se (des)cose.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

“Onde está a esperança?” Logo ali.


"Onde está a esperança?". Era este o mote para o programa “Prós e Contras” do dia 12 de Novembro, dia em que Angela Merkel visitou Portugal.

No decorrer do programa, procurava-se a esperança quando, a determinada altura, a esperança levantou-se e falou: disse que tinha 48 anos, um subsídio de desemprego de €248, que antes trabalhava no comércio e que vivia com duas filhas, uma delas com 22 anos e também desempregada. A filha mais velha não pôde ingressar no ensino superior por razões que se subentenderam. Havia também um abono de família de €42 da filha mais nova, que tem 15 anos e que estava a estudar. Esperança (digo, Gertrudes) já tinha vendido os anéis e já nem anéis havia. Havia também um subsídio de reinserção de €42. Fátima Campos Pereira pergunta: “Onde está a sua esperança, hoje”? Infelizmente, poucos naquela sala, incluindo a apresentadora, se aperceberam que a esperança estava ali, era ela, personificada em Gertrudes Moura, porque não interessa o que se lhe chama mas aquilo que é.

O que fico a pensar é que, havendo tanta dificuldade para perceber que a Esperança estava ali, naquela sala cheia, será que deixámos ir embora a Esperança sem a confortar, sem a ajudar, sem dizer-lhe: Esperança (digo, Gertrudes), isto não é muito mas dentro deste abraço-envelope vai o que ainda temos, a solidariedade deste país. Talvez não tenha havido abraço-envelope, e mesmo se tivesse havido, não era caridadezinha, era um dever de solidariedade.

A senhora Merkel, penso, nunca ouviu falar de Gertrudes Moura mas já terá ouvido falar de esperança; não sei é se a reconhecerá nestas vestes. E os senhores Primeiro-Ministro e Presidente da República? Falaram, respectivamente, à senhora Merkel da Gertrudes Moura (digo, da Esperança)?

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pão frio e Mundo quente


Hoje, de manhã, como em muitas outras manhãs, fui comprar o pão e “Le Monde” (jornal francês intitulado “O Mundo”). Hoje, dia de greves (quase) gerais, em que nem [se] (h)ouve sinais de Fernando Alves, o pão vinha frio e o mundo vinha quente. Sinais dos tempos?

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Onde está o escarlate-presente? Ouvimo-lo?


Eu comprava o mundo (“Le monde”) e ela agarrava-me na nota que o pagava e dava-me o troco como quem joga berlindes, numa velocidade infernal. À saída, uma senhora de cabelos brancos, que lhe vão bem com o casaco de Inverno escarlate, estaciona o carro alemão com uma rapidez que penso ir acabar o mundo. O mundo não acaba, pelo menos, hoje, penso eu, talvez equivocado.

Folheio a revista que veio com o jornal no serão de sexta e encontro o escarlate do casaco da senhora. É uma fotografia de Nobuyoshi Araki e leio o seguinte: “(…)Et toute photo n’est rien d’autre que la répresentation d’un jour unique. Et ce jour unique contient à la fois le passé et la projection de l’avenir”. Lido isto fico a pensar cá para mim se o presente-escarlate que escaparia a esta foto não estaria nos berlindes imaginários da rapariga da tabacaria e no casaco da senhora do carro alemão. Quem sabe?

Tudo isto me parecia, contudo, tão distante do silêncio, que, acoplado a uma folha em branco e, nos movimentos de uma caneta, nos faria ouvir Deus (ouvir aqui o programa de 8 de Novembro da “Global News” da BBC sobre “joy of silence”) ou, o que talvez seja o mesmo, nós mesmos.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O polícia apanha a vergonha e entrega-a ao Irmão Metralha


No passado Domingo, houve finalmente tempo para ver o documentário sobre a Goldman Sachs do canal Arte; além do calafrio que me causou, registo uma imagem que me marcou: um activista vestido de Irmão Metralha, à saída da audiência pelo Senado dos E.U.A de “Fabulous Fab”. Quando “Fabulous Fab” se prepara para sair da sala, o Irmão Metralha empunha um cartaz onde se lê “Shame” (i.e. vergonha); o cartaz cai no chão; o polícia, ao lado do Irmão Metralha, ajoelha-se para apanhar o cartaz onde se lê “Shame”, levanta-se e devolve “Shame” ao Irmão Metralha. De que lado terá ficado, então, esta vergonha?

“Fabulous Fab” é o “trader” francês da Goldman Sachs que alegadamente orquestrou a operação “Abacus”, que permitiu englobar num pacote empréstimos-habitação de alto risco de insolvabilidade convertidos em produtos financeiros com a classificação máxima de “AAA” que Goldman Sachs vendeu a clientes por um valor de €750 milhões enquanto, concomitantemente, especulava em baixa sobre esses mesmos títulos. Como resultado, o valor de tais títulos sucumbe e vários investidores – pessoas, de carne e osso, bancos de menor dimensão – perdem os seus investimentos e, alguns, os investimentos de uma vida; certamente, como nestes jogos de casino, quando alguém perde, há sempre alguém que ganha, e, aqui, quem ganha, é a Goldman Sachs.  Mas de quem é a Goldman Sachs? Talvez, como todas as grandes companhias hodiernas, de ninguém ou acoplado a uma mão invisível haverá também um rosto invisível?

 

Para saber mais sobre o assunto:


http://www.nytimes.com/2012/03/14/opinion/why-i-am-leaving-goldman-sachs.html?pagewanted=all&_r=0 (consultado a 21 de Outubro): artigo de GREG SMITH; “Why I Am Leaving Goldman Sachs”

http://www.nytimes.com/2012/10/20/business/why-i-left-book-about-goldman-falls-short.html?pagewanted=all (consultado a 21 de Outubro de 2012): NYT diz que o livro de Mr. Smith não apresenta factos que suportem o que ele alega. Terá a montanha parido um rato ou será impossível alguma montanha parir algo que desvele o que se passa na Goldman Sachs?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O marinheiro dos Natais


Hoje, acordei cedo, na hora em que ainda não se sabe onde nos levará a luz do dia. Tinha que abrir a porta da cave ao “ramoneur”, o limpa-chaminés, que, como no conto de Andersen, v(er)ia estrelas verdadeiras a partir da chaminé e provavelmente traria um príncipe por dentro que estaria apaixonado por uma pastora. Não sei é se ele também faria pinturas na calçada como Bert, o amigo limpa-chaminés de Mary Poppins.
 
 

Portou-se como um verdadeiro profissional. Tinha um cabo vermelho vivo, enrolado como uma corda de marinheiro e um bigode preto como a roupa que vestia. Eu, como toda a gente, fingi que não sabia mas a única razão da sua vinda era preparar a chaminé para a chegada do Pai Natal.

Continuação de uma feliz preparação dos vossos Natais!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Le Rom qui parlait des devises

Entendu à France 3 Soir, avec un accent:

« L’Europe et la France ont des devises très belles aux oreilles : « liberté, égalité et fraternité… mais elles n’ont pas d’application ».

C’était dit par un Rom dans un campement Rom mais je ne sais pas jusqu’à quand est-ce qu’il y restera ou jusqu’à quand est-ce qu’ils le laisseront y rester.

domingo, 30 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Como o Seu Júlio gosta do vão livre do Tiradentes


O senhor Júlio tem cabelos brancos como a neve que nunca cai em Belo Horizonte. Ainda se vêem alguns tufos de cabelo pintado mas a alvura vai vencendo uma luta desigual.

Ele tem uma lanchonete na Savassi, um dos bairros de Belo Horizonte, há 35 anos, disse-me ele, abrindo a mão em arco. Ele veste camisa e colete o ano todo, quando faz frio e quando faz menos frio. Um homem sem hábitos não é homem.

O negócio talvez tenha baixado desde que os administradores da Praça da Liberdade passaram para a cidade administrativa desenhada por Niemeyer, em Confins, perto do aeroporto. O senhor Júlio talvez não tivesse pensado que aquele arquitecto que não gosta de linhas rectas, e, por conseguinte, de esquinas, lhe iria trocar as voltas. A verdade é que Seu Júlio não deixa de admirar aquele vão livre de 147 metros - o maior do mundo - do Palácio Tiradentes, um dos edifícios da cidade administrativa. O senhor Júlio sorri por dentro ao pensar que o vão livre (“a pala”) do Siza, no Pavilhão de Portugal, do outro lado do Atlântico, tem apenas 75 metros. Tiradentes – ou Xavier, como lhe chamava Véronique, uma das personagens do imperdível livro “A Paixão deTiradentes” - não tinha disputado apenas a soberania injusta da coroa portuguesa, tinha, através de Niemeyer, provado que, nem tudo o que desafia as leis (da Coroa e da gravidade) tem necessariamente de cair, ou, por outras palavras, que nem tudo o que cai é porque não se poderia ter mantido de pé.

Ao senhor Júlio também lhe corre sangue português nas veias; não se sabe muito bem donde mas, isso, não é importante. O sangue português e brasileiro são indissociáveis e não era preciso um acordo ortográfico para nos sentirmos mais próximos.

Sentamo-nos numa mesa perto da calçada portuguesa de gosto tropical e vemos Belo Horizonte passar; e o bolo é bom e o cafezinho sabe bem. De repente, sai uma empregada da cozinha que adverte Seu Júlio para que um salgado já tá acabando e que é melhor fazer mais. O Seu Júlio, como que transfigurado em general de um exército de um só soldado (soldada, porque no Brasil tudo tem feminino, o que não é necessariamente mau) estica a farda que ainda agora era colete, ajeita o cabelo e, no meio daqueles olhos mansos, diz, com um gesto resoluto da cabeça e seguro de si: “Avance!”.

No Senhor Júlio, os salgados e o cafezinho ainda são acessíveis a uma bolsa normal. Numa Savassi que se moderniza, o que vai sendo sinónimo de aumento generalizado de preços, a pergunta que me ia colocando era: até quando?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sonhos que tenho em linhas azuis


Devíamos guardar sempre balões por encher à cabeceira da cama. Assim, quando acordássemos, poderíamos enchê-los com o que resta dos sonhos e eles poderiam regressar ao céu. Por enquanto, e em vez de balões, tenho linhas azuis onde vou deixando alguns dos sonhos que vou tendo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Pescador(es) de si mesmo(s)

 
Quem pesca quem?
Qui pêche qui?
Who fishes whom?
 
 
 
Fotografia tirada a 16 de Setembro de 2012, por detrás da Cité de la Musique et de la Danse, em Estrasburgo, França.

sábado, 15 de setembro de 2012

Portugal que amanhece


Visto num cartaz na manifestação da Avenida dos Aliados: “só os beijos me calarão a boca”.

Em frente à escadaria da Assembleia da República, ouvia-se “A polícia é do Povo”. Havia também um coração vermelho, recortado, que pairava por sobre a multidão, como os corações que se prezam.

A Inês, de 11 anos, dizia que esperava que com esta “revolução” o Passo Coelhos se demita.

Em Évora, dizia-se que o pior inimigo são os que não têm fome e que nos tiram o que comer.

No Funchal, havia gente na rua (o que já não é pouco).

domingo, 9 de setembro de 2012

Quando a emancipação feminina começa no fundo de uma caixa de madeira

No Norte da Nigéria, em Kano, a segunda maior cidade do país, uma caixa de madeira guarda economias de toda uma cooperativa. Em folhas de papel longe de estar liso, inscrevem-se economias e as linhas azuis naquela página de papel branco não mostram mais que 10 ou 20 cêntimos de euro por cooperante. Contudo, estas pequenas economias permitem fomentar toda uma economia local, através de empréstimos que permitem comprar animais, que depois ajudam a repagar o empréstimo e propiciam uma vida mais condigna. No ecrã de televisão onde vejo esta notícia há quase só mulheres. Os homens estão muito atarefados para este tipo de empreendedorismo. Contudo, há um homem que quer fazer parte desta cooperativa. Ele diz que ouviu falar daquelas mulheres e daquela cooperativa e que gostaria de comprar um animal para (sobre)viver. Elas levantam-se da cadeira, fincada sobre o pó da terra batida, ao lado da árvore que lhes ampara o sol e os pensamentos, e explicam-lhes as condições. No final, dizem-lhe que aquela caixa de madeira guarda também um pote de barro onde aqueles que violem o pacto colocam as notas da punição. No Norte da Nigéria, em Kano, a segunda maior cidade do país, a emancipação feminina começa numa caixa de madeira.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A contemporaneidade da aldeia da roupa branca


Em frente ao Museu de Arte Moderna e Contemporânea (MAMCS) de Estrasburgo, há uma senhora que estende roupa na varanda; e toda a contemporaneidade parece residir na aldeia da roupa branca na varanda da senhora que vive em frente ao MAMCS de Estrasburgo!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Os cantos dos pássaros nos sinos das tosquias


Arrumo livros - num dia bom, eu arrumaria e desarrumaria livros, abrindo-os, folheando-os, lendo passagens que a memória não guardou mas que ainda retinem no coração – e encontro, no “Poemário”-prenda-de-Natal, “Os Sinos” por Mário Rui de Oliveira.

“Como o amolador de tesouras, persiste no meio da cidade. Na sua inocência, as coisas por nós perdidas dançam. Que memória nos trazes, ó visitador? Que estradas conhecem tua voz, intimíssimo amigo que esquecemos?

É tarde e, talvez, já ninguém. Mas na rua passou a voz do amolador, orvalhada, como os sinos da velha igreja. Não tocam, mas os pássaros cantam lá dentro”.

Este poema é como a Nova Iorque dos campos na cidade: mesmo que nunca lá tenhamos estado, há um sentimento permanente de “déjà vu”.   

Um ou dois livros mais adiante - "Tosquias festa e arte por Luísa Gonçalves e Duarte Gomes" -encontro algo que me faz lembrar o amolador de tesouras: Mateus Filipe Miragaia, residente em Donfins, anexa da freguesia de S. Pedro do Jarmelo, no Concelho da Guarda, é o último artesão a produzir tesouras para tosquias. Hoje em dia, as tesouras já não mastigam tanto porque quase se abandonou a tosquia manual das ovelhas; mas quantos pássaros cantarão (caberão) nas pancadas na bigorna ao fazer as tesouras das tosquias?
 
 

sábado, 11 de agosto de 2012

11:11

Às 11:11 (ainda mais se for dia de São Martinho - 11 do 11 - e relembrarmo-nos da bonita estória do Verão de São Martinho) podemos ter sonhos vindos de todos os lados e sonhados de todas as maneiras. O que interessa são os sonhos vividos que cabem nas 11:11 (do dia 11 do 11 ou não).

O (im)possível está em (des)construção

Não é nada de novo mas tanto o possível como o impossível estão em permanente (des)construção; o que vai fazendo a diferença é o campo em que nos decidimos posicionar.

"Pour la petite histoire", o jornal em formato de revista "L'Impossible", que aqui dou conta, teve um número zero para ver se o impossível pegava (como se diria no Brasil); e não é que parece que pegou mesmo. No nº1 (na verdade, nº2) de tal jornal-revista o editor e pau para toda a obra Michel Butel diz que "ce journal, nous lui avons donné le nom du temps qui vient: l'Impossible". Cabe-nos a nós contrariar esta tendência do tempo que está por vir e torná-lo, isso sim, um tempo possível feito, com certeza, de muitos impossíveis.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Na verdade, Acção e Aventura


Ação (na verdade, acção) e Aventura (na verdade, tranquilidade)

Hoje, recebi a “newsletter” (na verdade, boletim informativo) da Livraria Almedina. Não sei se feito de propósito mas o “layout” (na verdade, o desenho) do boletim informativo era elucidativo (na verdade, sarcástico):
Título: Ação e aventura (v. supra)
Logo abaixo: Código do Trabalho (com desconto)
Ainda mais abaixo: Não nos Roubarão a Esperança (também com – muito - desconto)
E fica tudo dito (na verdade, vai nas entrelinhas).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Lições de jardinagem sentimental


Quando se corta a relva, é preciso ter muita atenção para não cortar os dentes-de-leão que possa haver pelo jardim; ao cortar os dentes-de-leão incorremos no risco de matar os desejos que estão por vir (e está por vir muita coisa). Matreiros, os dentes-de-leão tentam proteger-se perto dos roseirais para que os espinhos da realidade protejam os sonhos dos desejos. O que separa a realidade do desejo poderá ser apenas o tempo do sopro que (a)guarda um dente-de-leão.

domingo, 29 de julho de 2012

Beijar o indizível


Ao fazer as malas, vão-se alinhavando memórias de viagens futuras. Ao empilhar papéis encontrei um “Le Monde” (“O [meu] Mundo”) de 12 de Julho deste ano. Na página 20, encimada pelo seguinte título “Manu Chao chante partout son amour de la rue”, escrevi, a azul, “Quando se beija alguém que não fala será que é como se beijássemos duas vezes?”. Lembrei-me que no recente artigo de Isabel Lucas sobre Amos Oz – que escreve ficção a azul e, a preto, artigos sobre política e intervenção cívica – dizia-se que “quando [Amos] escreve uma história, a azul, ela mexe com as forças mais básicas da existência humana”. Eu, quando escrevo algo a azul, co-movo-me.

Post-leitura: este bilhetinho foi escrito ouvindo em surdina Ute Lemper a cantar “Paris Days, Berlin nights”. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

C’est nous qui étions priviligiés





Esta foi uma das imagens que mais me marcou nas celebrações deste 14 de Julho; o fotógrafo polaco Alek Nowak tirou esta fotografia no dia 14 de Julho numa rua de Cracóvia. Não será a “liberdade guiando o povo” de Delacroix mas poderá ser a “liberdade abraçando o povo” mesmo que os braços dos abraços sejam imaginários (e não há realidade que resista à imaginação). Apesar de não termos visto, foram estes braços, os braços do povo que se casou com a rua nesse dia de pão (companheiro: aquele com quem compartilhamos o pão; cum, panis) e fraternidade que amparou o pára-quedista que, nas celebrações do 14 de Julho deste ano, caiu mal, e que, quando abordado pelo Presidente Francês, disse “Désolé, Mr. le Président”, como se dissesse, “Désolé, la France”, ao que o Presidente (e a França) retorquiram “C’est nous qui étions priviligiés (…)”.

A liberdade, nesse dia, saiu à rua, em Cracóvia e em França. A liberdade, nesse dia, vestiu-se de noiva, como se vê na fotografia e casou-se com o povo, com o povo desdentado, com o povo com acne, com o povo de cabelo desgrenhado e oleoso. Se o amor pelo povo triunfar, ultrapassaremos esta fase de provações que a Europa e outros países atravessam. Cabe-nos a nós, o povo, decidir pegar no pára-quedas, mesmo com vento adverso e arriscando uma entorse, poder ter que vir a dizer: “Desolé, Mr. Le Président”.

Na fotografia, a janela da esquerda, o lado em que o coração pulsa, parece semi-aberta; sem um coração – ao menos - semi-aberto não há liberdade, igualdade e fraternidade que resistam.

Bom dia 14 de Julho!

“Viagem ao país da manhã" (da troika)

  De manhã

                         às vezes
                                          o pão chega embrulhado
                                                                                            no mundo
                                                                                                                  que o protege
                                                                                         Sem mundo
                                                          não haveria pão
                                    e sem  pão
    haverá mundo?


Aviso À navegação: “Viagem ao país da manhã"  é o título de um livro de Hermann Hesse.

sábado, 23 de junho de 2012

Passa-porte com sotaque(s)


Hoje, fui renovar o meu passa-porte; eu sem o meu passa-porte fico como o mar do Norte (da Madeira, não da Europa) que “faz borbulhinhas na mão”.


O meu passa-porte leva-me para lugares que, como dizia o Vinicius ao cantar o fado que compôs, “Saudades do Brasil em Portugal”, me ajudam a “botar um poquinho de sotaque” em mim mesmo. Sem sotaques o mundo seria insonso; sem carimbos, desnudo, o passa-porte seria triste, seria apenas porte sem passa. Por isso, na Expo 98, as crianças (e não só) corriam de um lado para o outro, de pavilhão em pavilhão, amealhando carimbos nos seus passaportes de brincadeirinha.

Não sei se se apercebem mas eu escrevo com sotaque madeirense; para ouvi-lo têm que ler em voz alta o que eu escrevo; o enrolar da onda no calhau, o vento que despenteia a árvore no jardim de casa, os cães à volta do mercado, as tesouras do barbeiro onde o meu avô ia, sentando-se naquelas cadeiras americanas vermelhas e brancas; tudo isto cabe no sotaque que não se ouve da minha escrita. E o resto são estórias com passa-portes.

O meu sotaque pertence-me tanto e faz-me tanta falta como um braço ou uma perna; nesta idade da globalização ajuda-me a fixar raízes, mesmo que, como diga a Debora Noal, estas sejam aéreas.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Da minha rádio ouve-se o mar


Começa a reportagem a ouvir-se o mar, o mesmo que havia engolido casas, carros, estradas, e, pessoas. Shihoko Gouveia, japonesa habitante em Cascais, há 30 anos, percebeu o que a nossa sociedade pena a compreender: “o dinheiro é só dinheiro”.

Shihoko subvencionou a 100% o transporte e o alojamento de 24 crianças japonesas para visitarem Portugal, porque, depois de uma catástrofe, não se pode ficar no mesmo lugar; tem que avançar-se; não, não é uma fuga para a frente mas sim subir às colinas de Lisboa, respirar, e depois voltar à mátria; e que mátria tão bonita eles têm.

Já em doca: apresento-vos este escrito já antigo que encontrei num computador que não desligo, que hiberna, esperando que eu volte a ele, como um animal de estimação. Escrevo depois da vitória nos últimos minutos do jogo Portugal-Dinamarca: “dinheiro é só dinheiro”; e o jogo? e o País? E depois?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O que o mundo poderia ter sido é possível

Um dia um amigo italiano que havia trabalhado em Timor-Leste disse-me que Timor é o que o mundo poderia ter sido; na recente entrevista dada por Ramos Horta ao “Público” leio a frase com que ele a termina: “Timor é possível”. Por dedução silogística, o que o mundo poderia ter sido é possível.

Contudo, o mesmo jornal “Público” relata a festa da liberdade (a comemoração dos 10 anos da independência de Timor-Leste celebrada a 20 de Maio de 2012) e menciona que, durante as celebrações oficiais, as autoridades timorenses e os convidados encontravam-se de “costas viradas” [sic] para os timorenses; o terreiro de pó em que se encontravam os timorenses contrastava com as poltronas e cadeiras das tendas VIP para os dirigentes políticos e convidados. No país do sol nascente, parece que haverá afinal algo de novo sob o sol.

Em bahasa indonésio, “timor” significa leste; Timor-Leste é, por isso, o leste do leste, o que está verdadeiramente longe. Lembro-me de andar por Bali, a ilha dos Deuses, e de querer muito ir ao leste do leste. Perguntava como ir de Bali a Timor-Leste mas todos me diziam que era complicado. Na verdade, a distância psicológica entre Bali e Timor-Leste é muito maior que a distância física como descobri no dia do nosso regresso visto que há um voo directo de Bali para o leste do leste.

Pedro Rosa Mendes, num artigo sobre Timor-Leste, recorda-nos que “um país é uma casa sagrada”, o que seguramente os romanos já celebravam (em latim, “domus” significa simultaneamente casa e pátria). Eu e muitos outros construímos também a nossa “domus” em terras do leste do leste mesmo que nunca lá tenhamos ido.

Les Pirates sont arrivés en Alsace

The street is calling II



"Culturez moi"

 

Photo prise devant le “Palais Universitaire” de Strasbourg, le 31 mai 2012.


sábado, 19 de maio de 2012

The street is calling I


"Les gens du Nord ne rèvent pas de girafes, les gens du Sud ne rèvent pas de chameaux".

Moi, je rève de girafes et de chameaux!

(As pessoas do Norte não sonham com girafas; as pessoas do Sul não sonham com camelos; eu, sonho com girafas e camelos)


Picture taken in Strasbourg, in front of the "École Supérieure des Arts Décoratifs de Strasbourg"


(Fotografia tirada em frente à referida Escola Superior, em Estrasburgo, que ocupa um bonito edifício)

sábado, 12 de maio de 2012

“There is harmony in terms of the person that I perhaps dreamed of being”


Joaquim Leitão falava da dinâmica, que existia nos seus filmes, entre o respeito por aquilo que é e por aquilo que poderia ser. No meu entendimento, artistas – incluindo, obviamente, os músicos – são agentes prevaricadores, que arriscam mais naquilo que poderia ser do que naquilo que é. É uma tensão quotidiana, é caminhar no fio da navalha; é um funâmbulo que pé ante pé percorre aquela linha tensa, suspensa do chão, sem rede, e que quando menos se espera dá aquela pirueta que não vem de lado algum, produzida não pelos músculos do artista mas pelo sonho de circo que temos em nós. O circo, esse mundo onde o que é encontra aquilo que poderia ser.

Andar pela vida – que é também sem rede mesmo quando a pensamos ver - é como tentar afinar um instrumento (e um piano também se afina). É preciso o som justo. Eu, enquanto jurista e entusiasta de direitos humanos, não sou diferente e aquilo que poderia ser, aquilo que deveria ser, o “quid ius”, o justo – recordo aqui que o novo Presidente eleito pelos Franceses disse que, no final do seu mandato, queria ser julgado pela justeza das suas decisões - é o que me faz singrar; mas, alto, Joaquim Leitão diz-nos que é preciso também respeitar aquilo que é, aquela ficção de realidade porque, caso contrário, a nossa récita de vida, de projecto de vida, não será verídica porque não será justa. Os sonhos terão que ser minimamente verídicos para serem sonhados? Ou para serem vividos? Felizes aqueles que viverão sonhos não verídicos!

Ontem, fui apanhado de surpresa – como todos nós – com a notícia que me chegava daquela falésia do Guincho; da imagem que Bernardo Sassetti andava à procura, da imagem abstracta, que talvez uma falésia, o mar, o vento, bemóis e sustenidos que enrolavam na onda que batia contra a rocha continham.

Há dias, soube que há um povo no nordeste do Togo, os Batammariba, cujo modo de vida foi considerado património imaterial da humanidade pela UNESCO. A transmissão do saber dos Batammariba é baseada na escuta, numa atenção estrita entre a gestualidade, o quotidiano, a maneira de falar e a inflexão da entoação. Os Batammariba são uma outra maneira de descrever Bernardo Sassetti e todos aqueles que acreditam num mundo que está por vir que é melhor do que aquele que aqui está; e que, por isso, lhe acrescentam o que têm de criatividade e engenho.

Quando soube que Bernardo Sassetti perecera, tentei, com afã, lembrar-me onde o tinha visto ao vivo – e aqui, a expressão, trai-me, ou talvez não – pela última vez: teria sido no festival de jazz de Coimbra, ou no Funchal Jazz, ou no Porto, ou teria somente imaginado sonhos possíveis de ver os “3 pianos” (que vi nessa mesma noite, por amável simpatia – a simpatia do serviço público - da RTPi)?

Nesse mesmo dia, fui ver, em homenagem ao Bernardo Sassetti, o pianista turco Fazil Say ( e que bonito é um pianista ter espelhado no nome a récita do dizer, “say”). As mãos de Say dançavam durante o concerto, abriam caminho para o seu corpo, para a orquestra filarmónica de Estrasburgo, e para toda a plateia que ali estava; as mãos de Say introduziam-nos àquele mundo do que poderia ser. As mãos de Sassetti faziam o mesmo. E a imagem sonora que Sassetti procurava por entre as falésias do Guincho: onde estará elas em nós?

O mais importante sobre Bernardo Sassetti é, talvez, o que ouvi, através de um ecrã de televisão, da boca de um amigo: humano, essencialmente humano. Como um grande artista que era, humano, acima de tudo. Um abraço!

Depois de ancorado e sobre o título: retroversão para inglês de “Tudo está equilibrado com a pessoa que eu talvez tenha sonhado ser", que é  uma frase retirada da entrevista de Ana Sousa Dias à Beatriz Batarda, a esposa de Bernardo Sassetti, para a revista "UP", cujo lema é "ouse sonhar mais alto" e que pode ser lida aqui.



sábado, 28 de abril de 2012

Ver-a-cidade

Hoje em dia, parece que ou temos sempre a bola e que as linhas de passe estão (quase) todas fechadas ou que ninguém nos passa a bola. Vi finalmente o filme “Linha de Passe” de Walter Salles e de Daniela Thomas. O DVD contém também uma entrevista com os realizadores; a páginas tantas, Daniela Thomas enuncia que o filme é sobre veracidade. Fiquei na dúvida: seria sobre a veracidade da cidade ou sobre ver a cidade. Pensei cá para mim que podemos ver a cidade sem veracidade. A família do filme, que todos os dias e a toda a hora tem que abrir linhas de passe mesmo sem saber se poderá alguma vez participar daquele jogo, mora na Cidade Líder, um distrito-subúrbio (ou será subterfúgio?) a leste da cidade de São Paulo; mas poderia também chamar-se Cidade Invisível. É uma cidade que não se sabe onde é, da qual não se ouve falar; é uma cidade a quem não se passa a bola, mas ela apanha-a para a meter em jogo, para que o jogo não pare. O jogo não pode parar.
A veracidade da cidade está em ter a coragem de interromper o jogo e imaginá-lo fora do estádio onde nos disseram que podíamos jogar. Aí, haverá linhas de passe para todos e a cidade invisível será, finalmente, a cidade líder. Para isso é preciso que nos lembremos que este é verdadeiramente um jogo colectivo.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

6 400 000

No momento em que escrevo, parece que o partido de Marine Le Pen obteve 6 400 000 votos; diz-se que um em cada cinco franceses (dos que votam – e muitos, cerca de 80%, votaram) votou nela. A pergunta que todos temos de colocar-nos é no que votam as pessoas que votam neste partido de extrema-direita, de ideário xenófobo, chauvinista, proteccionista, anti-europeísta, anti-euro. O eleitorado é um eleitorado jovem; será apenas um voto de protesto? Como se deixam mais de 6 milhões de pessoas ludibriar por um partido deste calibre? O Estado de Direito Democrático francês terá de estar à altura de dar-lhes uma resposta convincente mas republicana (no que isso significa deste lado do Atlântico).

Claro que o UMP, o partido de Nicolas Sarkozy, muito contribuiu para esta situação; o UMP pensou que poderia cultivar em terras do “Front National” – o partido de Le Pen – semeando o medo da imigração, propagando uma iníqua “hierarquia de civilizações”, referindo "ad nauseam" a proposição do PS francês sobre o voto dos estrangeiros nas eleições locais, e, mais do que isso, construindo toda uma ideologia de “nós” e “eles”. Um “nós” que se quer puro, “franco-français” como se diz por aqui; a novidade é que esta França não existe; a França hodierna é uma França plural, multi-étnica, com várias crenças e quem pensar que pode dar respostas monolíticas a sociedades plurais engana-se tanto como quem pensa que pode dar respostas nacionais a problemas europeus e globais.

Claro que os políticos dos “grandes” e “menos grandes” partidos franceses, terão que questionar-se sobre o porquê desta situação e terão que começar já hoje a tentar corrigi-lo. A República Francesa e os valores de humanismo, de solidariedade plasmados no tríptico-ideário de “liberté, egalité, fraternité” não podem estar à mercê de uma senhora que se arvora o direito de apropriar-se da “Marseillaise” – o hino francês. A “Marseillaise” é de todos nós; a “Marseillaise” é um hino à liberdade, à humanidade; a “Marseillaise” escutava-se no filme “Casablanca” - quando cantada pelos resistentes, por aqueles que aspiravam por um mundo livre, mais igual, sem o opróbrio da guerra - e abafava o hino alemão cantado pelos generais alemães no período da II Guerra Mundial.



Eu vou também combater as ideias de Marine Le Pen assobiando a “Marseillaise”. A “Marseillaise” foi escrita e cantada pela primeira vez em Estrasburgo; Estrasburgo é a capital da Alsácia, onde o “Front National” obtém resultados muito expressivos. Diz-se que há uma grande clivagem entre as zonas urbanas e as zonas rurais na Alsácia, onde as zonas rurais votariam mais à direita (e mesmo na extrema-direita: há aldeias onde o partido mais votado é a extrema-direita) e as zonas urbanas seriam mais liberais; muito bem; há então que perceber o porquê desta situação; há que ouvir as pessoas descontentes mas, sobretudo, adoptar uma posição pedagógica e ser portador de uma mensagem clara: os estrangeiros, os muçulmanos, as pessoas que se encontram em situação vulnerável, as pessoas de etnia cigana, os homossexuais não podem ser bodes expiatórios. Não queremos novas Inquisições com outras vestes.

Marine Le Pen fala, em directo, a partir do “Equinoxe”; uma metáfora? Depois de um dos dois equinócios anuais, os dias começam a crescer; assim, pode ser que a luz vença as trevas também nestas eleições mas para que isso aconteça é necessário políticos à altura e uma sociedade civil que intervenha na causa pública. Infelizmente, e no que diz respeito aos políticos, algumas altas figuras  do UMP caçavam, já ontem, o voto do "Front National".

A noite eleitoral já não é a mesma; dispersamos o olhar entre os diferentes canais de informação e as redes sociais. Aparentemente, das coisas mais importantes para os canais de TV é entrever a face de Nicolas Sarkozy por detrás dos vidros escuros da sua viatura francesa; e que espectáculo bárbaro é ver todas as motas de jornalistas que se aproximam perigosamente do carro em que segue para não mais que mostrar a sua face.

E depois de libertar-se de Sarkozy – o que não é necessariamente evidente depois deste dia de eleições, e, sobretudo da 3ª posição da candidata de extrema-direita, Marine Le Pen – o que nos dará o novo Presidente? Um Presidente que é eleito na base do anti-alguma coisa, terá que, desde o primeiro dia do seu mandato, saber construir.

Da minha parte, não quero mais directrizes “Merkozi” para a Europa e bater-me-ei por isso; é o mínimo que podei fazer para celebrar o 25 de Abril que se celebra daqui por 2 dias (talvez, e para não variar, com a excepção do Governo Regional da Madeira). Por razões de ordem técnica, não consigo ouvir o som do vídeo da "Marseillaise" que aqui incluo; hoje, a luta é outra; a nossa "Marseillaise" terá que ser cantada por todos para que abafe Marine Le Pen quando esta a canta, deturpando-a.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Equacionando o que fazer

Se pudéssemos falar por algarismos, como escreveríamos? Se um 2 fosse amor e um 3 desencanto, o que sucederia quando se chegasse aos 23 anos de uma relação?

Nos recibos dos "restaurantes" McDonald's, em Estrasburgo, a vida já existe em números. Fui atendido pela empregada #3 (este 3 não era, ao contrário do que referi anteriormente, de desencanto, era um 3 com um sorriso vago, eficiente, diria, mas simpático; comi no restaurante 54 do grupo (quantos haverá em França?). O código de acesso das casas-de-banho é o 1979B, uma maneira post-moderna de evitar a tabuleta branca com letras azuis nas portas das casas-de-banho onde se indicava que a utilização das casas-de-banho é exclusiva para clientes. 1979 foi o ano em que eu nasci; 10 anos depois do homem (na verdade, os homens) terem chegado à lua pela primeira vez - será que viveríamos num mundo diferente se tivessem sido mulheres a chegar à lua pela primeira vez; e que teria(m) ela(s) dito?

Penso nos encontros e desencontros binários que se processam - e que nem consigo imaginar dada a velocidade vertiginosa dos mesmos - para que eu possa utilizar a internet sem fios, num só clique; quantos milhares de equações intermedeiam o que vejo no pequeno écrã do meu telefone e o meu olhar? E eu? Quantas equações intermedeiam entre mim mesmo e o ir ao encontro de alguém?

terça-feira, 27 de março de 2012

Copo de vidro e relações humanas

A Elina - a minha sobrinha de quase quatro anos - disse-me, há dias, que não queria beber num copo de vidro (em inglês, "glass" é ao mesmo tempo vidro e copo e pode também ser espelho) porque "podia partir-se"; nesse momento, pensei que, nas relações entre adultos, é habitual querermos logo beber no copo de vidro - o copo de festa - mas corremos o risco de parti-lo. Nas relações humanas, ao contrário dos copos, uma vez quebradas, é difícil repará-las e ninguém quer substituí-las. A Elina tinha razão. Dei-lhe um copo de plástico.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O republicano com uma rainha nos bolsos

Hoje, fui comprar (o) pão (nosso de cada dia) à padaria do bairro. Quando estava na fila, preparava o troco certo para não fazer ninguém esperar. As duas moedas de €2 que tinha apresentavam uma águia alemã e a efígie da rainha Beatriz da Holanda (com a particularidade de todo o século XX ter sido o século de rainhas, na Holanda: Guilhermina, Juliana, e, agora, Beatriz). Entre uma rainha e uma águia - apesar do destino do coração desta rainha ter sido atado ao de uma águia alemã pelos laços do matrimónio com Claus von Armsberg - dei a águia e fiquei com a rainha; contudo, não sei se a poderei guardar por muito mais tempo porque, hoje em dia, os euros não chegam a arrefecer nos bolsos ou carteiras. Quando se sai da padaria, sai-se normalmente com vestígios de farinha na roupa que nos desenham o mapa da fome ou da gula mas eu, republicano (com o significado que lhe é atribuído deste lado do Atlântico) convicto saia com uma rainha nos bolsos. Até quando?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Es-pêra-da

A pêra-rocha, em França, é verdadeiramente dura de trincar mas, ao contrário do que se possa pensar, não é de rocha que lhes vem o nome mas de António Rocha, um mercador de cavalos do séc. XIX, de Sintra. Rocha de nome e rocha ao trincar. Fruta que vem de Portugal, do oeste.

O que eu sei é que sempre que passo por aquele cantinho do supermercado onde vendem a pêra-rocha, ponho-me a sorrir; e penso em Cézanne; parece que ele passou grande parte da vida à procura da pêra perfeita para que a pudesse desenhar; se ele soubesse… no supermercado a que vou, os clientes, esses, parecem passar-lhe ao lado[1]; se eles soubessem…

Para que a estória se complique ainda mais na história, pêra foi o nome que os portugueses deram à goiabeira quando esta se aclimatou na Índia; nalgumas partes de Portugal, pêra é também uma variedade de melão; em Moçambique e na Madeira, pêra-abacate é o nome do abacate, o eterno transeunte entre o fruto que é e o legume que parece teimar em querer ser; e continuamos a viajar pelo mundo, o que pode ser doce, mas, nem sempre, pêra doce; contudo, espero que viajar, o tenha para peras (i.e. para muito tempo). Pêra é até, no seu diminutivo carinhoso, aquela porção capilar que deixamos crescer no queixo; pode ser também, cuidado, um murro.
Veio o acordo ortográfico e tirou-lhe o chapeuzinho; será que, agora, ela tem mais frio? De rocha a rochedo? Ainda pensei que sem chapeuzinho, as peras-rocha pudessem ter frio mas elas já não são conservadas em câmaras de frio mas sim em câmaras de atmosfera controlada; já não passam frio; tiram-lhes é o oxigénio. É assim possível uma conservação muito mais prolongada; será que a vida hodierna é como a pêra rocha conservada em câmaras de atmosfera controlada: de conservação prolongada mas, para isso, sem oxigénio?



[1] Contudo, inteiro-me que 25% da produção de pêra-rocha é escoada para França; v. http://economia.publico.pt/Noticia/vendas-de-perarocha-a-crescer_1494304 , consultado a 5 de Abril de 2012.